quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Amizade

Amizade

A amizade se manifesta das mais confusas formas. Até semana passada eu podia jurar que tinha um irmão, que somente não morava na mesma casa que eu; mesmo assim, o tempo que passávamos um na casa do outro, ou ambos na rua, era suficiente para que qualquer um afirmasse o mesmo, embora nunca tenhamos sido parecidos fisicamente.  De um dia para o outro, porém, uma história de meia década encontrou seu fim. Teria sido imaturidade de alguma parte? Ou o final já estava decretado, e apenas nos negávamos a vê-lo?

Não gosto disso, mas também não vejo como poderíamos continuar. A amizade é um relacionamento trabalhoso, pois nela há mais tolerância que no amor – as brincadeiras idiotas são mais frequentes entre os amigos do que com o parceiro, o que significa que algumas vezes alguém excederá o limite do outro.

A outra característica diferencial é que a amizade não te torna exclusividade de outra pessoa, afinal, cada indivíduo pode ter tantos amigos como bem lhe aprouver. Apesar de o ciúme gerado por isso ser notavelmente menor que em relações amorosas, também é notavelmente mais constante (e para que não haja rompimentos por tal motivo, a única solução é adquirir maturidade – ou seja, se machucando e aprendendo com a vida).

O luto é a dor da perda, e não advém apenas nas situações de morte, não. Qualquer perda sofrida pelo ser humano exige que este passe pelo processo de luto. Mas também não é necessário sofrer mais do que a ocasião exija. Da mesma forma que um se foi (e talvez volte, mais cedo ou mais tarde), outra chegou. E, se fosse uma troca, acredito que teria saído ganhando; mas não é e, como todo ser humano egoísta, prefiro ter os dois em minha vida.

Isso porque aprendi muito observando as pessoas. A cada dia que passa, cresce em mim a certeza de que o melhor jeito de evoluir é agregando o que cada um tem de melhor. Para que isso funcione, portanto, possuir uma quantidade significativa de amigos é essencial. Identificar tais pontos positivos, por outro lado, é uma habilidade cujo aperfeiçoamento requer treinamento e dedicação pessoais.


Pode parecer egoísmo usar as amizades para a autovalorização, mas não é. Os melhores momentos da vida são os que se passa com os amigos. Se todos usassem esses momentos para aprender uns com os outros, todos seriam melhores pessoas e os bons momentos seriam melhores ainda. Amizade é sentimento, e nesse texto pareço estar racionalizando-a, mas tal ação não entra em atrito com o atributo sentimental das relações amistosas. Apenas corrobora que quando se trata de relações humanas, o sentimentalismo e o racionalismo andam juntos.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Desejo



Desejo

Todos têm desejos. Alguns desejam encontrar um bom emprego, outros querem que seus filhos estudem para levarem a vida adulta com tranquilidade. Um dia terei esses desejos. Mas hoje, com minha vida plena de amigos, atividades, trabalho e estudos, o que poderia eu desejar?

Desejo o que todo homem deseja. Uma garota. Uma garota que tenha um rosto amável, e cujo corpo eletrifique-me de prazer ao contato. Uma garota com quem eu possa conversar abertamente. Uma garota feminina, mas sem a frescura própria das patricinhas. Acima de tudo, uma garota que discorde de mim sem medo de dizer por quê.

Não precisa gostar das mesmas músicas que eu gosto, nem de videogames ou jogos online. Apenas uma garota curiosa, com sede pela vida e todas as oportunidades de aprender. Uma garota que diga “sim” 1000 vezes, mas que diga “não” sem medo quando achar que deve.

Uma garota que não tenha receio de errar, que tente, sem temer o fracasso ou a vergonha. Uma garota que me acompanhe, mas que tenha seu próprio espaço, o qual não devo adentrar sem sua permissão – mesmo que não seja necessariamente um espaço físico.

Uma vez conheci uma garota assim, mas desperdicei. Quantas mais existirão por esse mundo? Será que perdi para sempre minha garota perfeita?

Uma garota que antes, bem antes, de me tratar como namorado, trate-me como melhor amigo.


                                                                             Texto de meu conterrâneo, Elias Gibson

domingo, 29 de setembro de 2013

Seal - Capítulo 12 - "Amizades"

Capítulo 12 – “Amizades”

           Mover-se era um esforço descomunal. Falar era um sofrimento necessário. Bend Mitchel reabilitava-se dia a dia, pouco a pouco. Seus amigos sempre estavam por perto para ajuda-lo em qualquer necessidade. Um jovem quase da mesma idade de Sonny passara a ser visto com frequência aos arredores de sua casa também; Bend nunca havia reparado nele antes, então só pode supor que era um morador novo. O rapaz usava um chapéu coco, e parecia estar sempre muito interessado na sua recuperação. Mais de uma vez o garoto fora abordado na rua por ele, enquanto caminhava. Seu nome era Stuart, e ele já perguntara a Bend sobre o acidente em uma ocasião, e sobre suas lembranças da viagem com Slit pela E. H. em outra. Bend, embora intrigado, gostou do jovem, e começou com ele uma relação muito semelhante a que tinha com o irmão de Johnny.
        Ned Mad desenvolvera-se ainda mais nos últimos anos. Agora, além de sua altura (que aumentara, se é que isso era possível), músculos definidos preenchiam seus braços, pernas, peitorais e abdome, o que fazia com que se assemelhasse a um atleta olímpico. O contraste entre ele e Bend nunca fora tão marcante; se antes Bend se esforçava ao máximo para acompanha-lo em tudo, e seu espírito de liderança lhe provia o status de “chefe do bando”, principalmente defronte a humildade com que Ned se apresentava, agora sua debilidade física e imaturidade lhe afastavam a cada segundo do colega, motivado por inveja e rancor, mesmo que infundados. Ned, por outro lado, tentava ficar ao máximo com o amigo, sempre desviando as rotas feitas pelos outros garotos para que fossem dar na casa de Bend. Ned, sobretudo, admirava-o.
Bend não reclamava da companhia dos moleques, mas preferia poder conversar com um ou dois de cada vez. Particularmente, gostava mais ainda de ficar apenas com Jack Moron, conversando no seu quarto, nos fins de tarde. Jack lhe provia uma visão singular de tudo o que acontecera durante o tempo em que ele ficara em coma. Bend sempre o vira como uma espécie de visionário, de guru, um pensador incompreendido nunca requisitado. Agora, dava ares de estar ligeiramente mais sociável do que na época em que andavam juntos, apesar de ter mudado pouco fisicamente: ainda tinha a mesma cara magra chupada, o cabelo curto e os ossos proeminentes. Infelizmente, parecia estar com conjuntivite, então Bend procurou não se aproximar muito durante a conversa.
- O que você anda fazendo, Jack?
- Humm. Ando trabalhando – respondeu ele, sem pressa. Como Bend questionasse em quê, ele completou, lentamente:
- Tenho trabalhado pro Sr. Mathews, no Shark Roast. Eu carrego as caixas pra ele. Às vezes o Ned Mad me ajuda. Eu não aguento com algumas caixas.
Ele fez uma pausa, como se estivesse se lembrando de algum acontecimento relacionado a isso. E continuou:
- Às vezes ele me deixa ajudar na cozinha. Eu gosto de cozinhar, é divertido. Lavo as coisas também. O Sr. Mathews é um bom chefe. Ele me paga o que eu mereço, e me deixa descansar nos fundos, no meio da tarde.
- Que bom, Jack, que bom. Também quero trabalhar assim que possível – disse Bend.
- Não.
Bend Mitchel olhou para o lado, indagando-o:
- O quê?
- Não... você tá atrasado na escola, vai ter que estudar mais que a gente.
Se tinha alguém de quem Bend não esperava ouvir esse tipo de conselho, era de Jack Moron. O amigo sempre defendera princípios como lealdade e amizade, mas nunca estudos. Definitivamente as coisas tinham mudado. Ao menos, ele era direto como sempre fora. Se essa conversa houvesse acontecido com Max, este teria feito uma verdadeira cena para chegar ao ponto. Se fosse com Johnny...
- Johnny tá namorando – disse Jack, interrompendo seus pensamentos.
- Quê? Quem? – perguntou, temendo que a resposta fosse...
- Johnny – repetiu Jack.
- Isso eu entendi, mas quem ele tá namorando?
- Humm. Sophie. Ela tá bem bonita!
Bend sorriu; um sopro de alívio invadiu todo seu corpo. Se a reposta tivesse sido Mag, ele teria que acabar com mais uma amizade.
- Ah sim, e a Mag tá com o Ned Mad.
A janela de madeira atrás de Jack se fechou, de súbito, assustando-o.
- Como você, disse, Jack?
       Jack Moron olhou assustado para o amigo. Já sabia sobre o que não conversar no dia seguinte.