quarta-feira, 20 de março de 2013

Seal - Capítulo 5 - "Na Empiric High"


Capítulo 5 – “Na Empiric High”

O Corcel vermelho descia de Blessed Sorrow a Sunset Mountain pelas curvas sinuosas que a Empiric High impunha aos motoristas que precisavam viajar pela colina.

Bless era o vilarejo mais alto de toda a região, e mesmo os mais experientes na arte de dirigir tinham receio de pegar aquela estrada à noite, uma vez que, além de possuir apenas uma faixa estreita e não ter sinalização, não era nem remotamente iluminada. Os acidentes por lá eram frequentes e, quase sempre, fatais. “Na E.H. só vai quem sempre guiou por lá. Forasteiros não têm a menor chance” diziam os moradores que a utilizavam. E estavam certos: a prefeitura de Sunset Mountain proibiu o uso da rodovia para transportes públicos alguns meses depois de um jovem motorista de ônibus chocar-se com um caminhão e matar quarenta estudantes do ensino fundamental e dois professores, quando voltavam de uma aula de campo. A comoção na cidade foi tão grande que nem essa medida tomada pelo prefeito o impediu de perder o cargo algumas semanas depois; os manifestantes alegavam que ele deveria ter feito isso antes, já que o perigo de transportar pessoas naquela estrada era evidente desde sua inauguração, sob o nome de Young Highway. Mas isso acontecera há mais de 20 anos. Os transportes públicos pararam de trafegar por lá. Mas os acidentes não pararam de acontecer.

                A Empiric, no entanto, nunca fora um problema para Anderson “Slit” Thomas, ou simplesmente Sonny Slit, como era mais conhecido. Embora tivesse apenas 20 anos, dirigia naquela estrada desde seus 14, e acompanhava seu pai desde os três. Antes de sua morte prematura, resultado de uma briga em um bar há algum tempo, ele lhe ensinou tudo o que era necessário saber sobre ela. Apesar de que levar uma garota extremamente sexy, que o abraçava e apertava durante o caminho, provavelmente não fazia parte das lições.

                - Claire, gata, eu preciso me concentrar aqui – com delicadeza, Sonny segurou uma de suas mãos e a desenroscou de seu pescoço, enquanto desacelerava mais um pouco e fazia uma curva fechada à esquerda – e você não tá ajudando.

                - Hum, Sonny, você é tão acostumado com esse caminho... para de se preocupar tanto.

                - Eu aprendi a respeitar essa estrada, gata. Não fica me distraindo enquanto eu estiver dirigindo aqui. Porque você quieta já é uma distração e tanto.

                Eles se beijaram, enquanto ele engatava a terceira, e ela puxou uma revista de dentro do porta-luvas para matar a conversa de uma vez.

                - Rolling Stones, legal!

                Ele, entretanto, sentiu-se na obrigação de explicar o porquê de não poderem passar a noite em Bless como haviam combinado.

                - Você sabe que eu não posso deixar o Johnny sozinho, né? Minha mãe ligou pra gente da casa da vizinha avisando que o carro quebrou, o que mais eu poderia fazer?

                Claire não tirou os olhos da revista enquanto respondia:

                - Tudo bem, amor. Só que eu não queria ver a cara do imbecil do meu irmão, e eles andam juntos. – Ela mudou para um tom sedutor – Depois a gente pode voltar? Na minha casa a gente vai ter mais privacidade...

                “Talvez.”

                Sonny Slit não queria prosseguir na conversa. Ele desejava ardentemente que pudessem voltar para o topo da colina aquela noite. Claire esbanjava sensualidade; o corpo bem delineado, os seios proeminentes em um decote revelador, o mini short apertado em suas coxas vultosas, seu rosto de menina levada com lábios graúdos, seus sedosos cabelos castanhos que caíam em ondas por seus ombros delicados... tudo nela lhe chamava a atenção naquele momento.

                Mas seu pai lhe dissera que nunca mexesse com a Empiric durante a noite. Ela era cruel e orgulhosa; exigia que seus passageiros cumprissem o horário consensual, que realizassem suas viagens até o pôr-do-sol, ou estariam correndo o risco de morte. Se ela estivesse de mau humor, matá-los-ia mesmo durante o dia, a não ser que estivessem duplamente alertas. Correr pela E.H. durante a noite parecia uma loucura tão grande quanto se jogar na frente de um rolo compressor – e o sol já se extinguia no horizonte. Não, eles não voltariam. Mas não ia discutir isso agora.

                O Lago Black Shark não era distante da colina onde ficava Blessed Sorrow. Poucos minutos após Sonny sentir o alívio de deixar a Empiric High para trás, ele já avistava as pedras onde os garotos estavam, iluminadas pelo único poste da área. Acima também era possível observar o Shark Roast, com sua varanda apoiada em grossos pilares de madeira introduzidos na água do lago. Era aonde a maioria dos clientes procurava se sentar em noites de luar, principalmente os jovens pares românticos, como ele e Claire.

                - Vou pegar o Johnny e já volto, ok? Tem certeza que você não quer dar um alô pro seu irmão? – perguntou Sonny, estacionando o carro próximo de onde os moleques estavam.

                - Não precisa, o idiota já me viu. Olha ele vindo ali.

                Claire apontou para um garoto loiro, de estatura mediana e algumas sardas que vinha na direção do Corcel vermelho.

                - OI, CLAIRE! VOCÊS PRECISAM VER ISSO! O BEND DESAFIOU O NED PRA UMA CORRIDA! NINGUÉM NUNCA TEVE CORAGEM DE DESAFIAR NENHUM DOS DOIS PRA NADA! VENHAM VER, RÁPIDO!

                Claire corou de vergonha. Quem se preocupava com as brincadeiras desses fedelhos? Será que o Sonny a compararia com o irmão caçula retardado?

                Quando ela se virou para pedir desculpas ao namorado, estacou no meio da frase e olhou perplexa para ele; Sonny Slit já fora em direção à aglomeração com o braço ao redor do pescoço do garoto:

                - Isso eu quero ver, Max! Quem você acha que ganha?

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