sexta-feira, 15 de março de 2013

Seal - Capítulo 4 - "O Voo do Flamingo"


Capítulo 4 – “O Voo do Flamingo”

Talvez Edward Callhard não fosse o tipo de garoto que arrasasse corações, mas todos concordavam que o moleque tinha um baita porte atlético. De sua turma de amigos, era o mais alto, e, consequentemente, tinha as pernas mais compridas, que lembravam muitas vezes as de um flamingo – Flamingo, inclusive, foi o apelido predecessor ao atual. Tinha a pele queimada de sol dos joelhos para baixo, por andar frequentemente com um calção folgado e quase sempre descalço, e dos pulsos até o cotovelo, uma vez que ninguém nunca o vira sem as camisetas regatas que se tornaram sua marca registrada.

                No seu aniversário de onze anos, Flamingo bebeu pela primeira vez. Ninguém sabe muito bem como isso aconteceu, mas quando a noite chegou ele havia desaparecido da comemoração. Seu melhor amigo, Bend Mitchel, foi quem o encontrou primeiro: no telhado do barracão onde rolava a festa, cambaleando em ziguezague enquanto mantinha bem segura uma garrafa de cachaça em uma das mãos, Edward parecia se preparar para dar um salto olímpico na piscina – que estava seis metros abaixo, e quase sete a sua frente.

Todos os presentes correram para ficar entre ele e a água; seus pais estavam brancos e catatônicos, curiosos murmuravam entre si, engraçadinhos o incentivavam a pular, as garotas imploravam para que ele não fizesse nenhuma besteira, mas foram seus amigos que subiram no telhado para demovê-lo de tal loucura. Johnny Dirty liderou o grupo formado por Bend, Jack Moron e Sonny Slit, ao encontrar uma velha escada de madeira encostada na parede da construção, completamente coberta de musgo e grama, e erguê-la, com a ajuda de todos, até onde Flamingo estava.

- Você definitivamente não sabe beber, Flamingo – começou Jack Moron, tentando soar amistoso e despreocupado.

- Amigos! – Edward sorriu de orelha a orelha ao vê-los – Vocês vieram ver o meu show? Eu vou voar, cês querem apostar?

Sonny Slit, o irmão mais velho de Johnny Dirty, que às vezes andava com eles, tentou convencê-lo a descer usando um pouco de psicologia.

- Flamingo, sua voz tá tão enrolada que eu não tô entendendo nada que cê tá falando. Anda, vamos descer, cê também tá cheirando mal, além de tudo.

- Calma, Sonny – disse lentamente o alegre Flamingo -, eu vou descer, cê já vai ver.

O garoto começou a dar algumas passadas para trás, como que para pegar impulso.

- Eu vou tirar ele daqui a força – decidiu Bend Mitchel, indo em sua direção, quando foi segurado por Sonny.

- Você não vai pra beira desse telhado velho comigo aqui, Bend. Ou ele vem até a gente, ou ninguém faz nada. Vocês não vão se arriscar a cair também.

Embora Bend fosse conhecido por ser o mais forte e impetuoso do grupo, ele nada poderia fazer enquanto estivesse imobilizado por um adolescente de quase dezoito anos.

- FLAMINGO, VOLTA AQUI, DROGA!

Mas os gritos foram em vão. Tudo pareceu transcorrer em câmera lenta. Edward correu pelo telhado, pisou na calha e se lançou ao ar da noite, para o delírio de mais de cem convidados, que testemunharam um dos acontecimentos que entraram para as crônicas de Sunset Mountain, e ficou conhecido como “O Voo do Flamingo”. O garoto conseguira um impulso fantástico e subiu como um projétil em um ângulo perfeito; as poucas pessoas que não estavam completamente hipnotizadas por ele e elevaram as mãos para proteger cabeça, ou abaixaram o corpo, viram que tais atos não tiveram nenhuma finalidade – Flamingo nem sequer passou perto de acertar alguém. Ele se deslocou por mais de três metros ainda em ascensão e, quando começou a envergar o corpo, foi como assistir a um mergulhador profissional se posicionando para adentrar a água com os braços. O garoto não só caiu na água sem se machucar, como também conseguiu manter a garrafa intacta; ao emergir novamente, diante do olhar de todas aquelas dezenas de pessoas, Flamingo pareceu tomar consciência do que acontecera – talvez o banho de água fria o houvesse despertado. Fez-se um momento sepulcral de silêncio absoluto, onde todas as pessoas pareciam receosas até mesmo de respirar. Assustado com tudo aquilo, Edward lentamente levantou a mão esquerda, que segurava a garrafa, como que mostrando a todos que ele não quebrara nada... e levou-a a boca novamente. Alguns homens não conseguiram conter o riso. A multidão explodiu em palmas, gritos e assovios. Ele estava consagrado.

Os amigos rolavam de gargalhar em cima do telhado, e, quando Bend achou que o apelido de Flamingo estava mais do que aprovado, Johnny virou-se para eles e disse:

- Esse é o cara mais louco que eu já vi.

Nascia Ned Mad.

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