Capítulo 4 – “O Voo do Flamingo”
Talvez Edward
Callhard não fosse o tipo de garoto que arrasasse corações, mas todos
concordavam que o moleque tinha um baita porte atlético. De sua turma de
amigos, era o mais alto, e, consequentemente, tinha as pernas mais compridas,
que lembravam muitas vezes as de um flamingo – Flamingo, inclusive, foi o
apelido predecessor ao atual. Tinha a pele queimada de sol dos joelhos para
baixo, por andar frequentemente com um calção folgado e quase sempre descalço, e dos
pulsos até o cotovelo, uma vez que ninguém nunca o vira sem as camisetas
regatas que se tornaram sua marca registrada.
No seu aniversário de onze anos, Flamingo bebeu pela
primeira vez. Ninguém sabe muito bem como isso aconteceu, mas quando a noite
chegou ele havia desaparecido da comemoração. Seu melhor amigo, Bend Mitchel,
foi quem o encontrou primeiro: no telhado do barracão onde rolava a festa, cambaleando
em ziguezague enquanto mantinha bem segura uma garrafa de cachaça em uma das
mãos, Edward parecia se preparar para dar um salto olímpico na piscina – que estava
seis metros abaixo, e quase sete a sua frente.
Todos os presentes
correram para ficar entre ele e a água; seus pais estavam brancos e catatônicos,
curiosos murmuravam entre si, engraçadinhos o incentivavam a pular, as garotas
imploravam para que ele não fizesse nenhuma besteira, mas foram seus amigos que
subiram no telhado para demovê-lo de tal loucura. Johnny Dirty liderou o grupo
formado por Bend, Jack Moron e Sonny Slit, ao encontrar uma velha escada de
madeira encostada na parede da construção, completamente coberta de musgo e
grama, e erguê-la, com a ajuda de todos, até onde Flamingo estava.
- Você
definitivamente não sabe beber, Flamingo – começou Jack Moron, tentando soar
amistoso e despreocupado.
- Amigos! –
Edward sorriu de orelha a orelha ao vê-los – Vocês vieram ver o meu show? Eu
vou voar, cês querem apostar?
Sonny Slit,
o irmão mais velho de Johnny Dirty, que às vezes andava com eles, tentou
convencê-lo a descer usando um pouco de psicologia.
- Flamingo,
sua voz tá tão enrolada que eu não tô entendendo nada que cê tá falando. Anda,
vamos descer, cê também tá cheirando mal, além de tudo.
- Calma,
Sonny – disse lentamente o alegre Flamingo -, eu vou descer, cê já vai ver.
O garoto
começou a dar algumas passadas para trás, como que para pegar impulso.
- Eu vou
tirar ele daqui a força – decidiu Bend Mitchel, indo em sua direção, quando foi
segurado por Sonny.
- Você não
vai pra beira desse telhado velho comigo aqui, Bend. Ou ele vem até a gente, ou
ninguém faz nada. Vocês não vão se arriscar a cair também.
Embora Bend
fosse conhecido por ser o mais forte e impetuoso do grupo, ele nada poderia fazer
enquanto estivesse imobilizado por um adolescente de quase dezoito anos.
- FLAMINGO,
VOLTA AQUI, DROGA!
Mas os
gritos foram em vão. Tudo pareceu transcorrer em câmera lenta. Edward correu
pelo telhado, pisou na calha e se lançou ao ar da noite, para o delírio de mais
de cem convidados, que testemunharam um dos acontecimentos que entraram para as
crônicas de Sunset Mountain, e ficou conhecido como “O Voo do Flamingo”. O
garoto conseguira um impulso fantástico e subiu como um projétil em um ângulo
perfeito; as poucas pessoas que não estavam completamente hipnotizadas por ele e elevaram as mãos para proteger cabeça, ou abaixaram o corpo, viram que tais atos não tiveram
nenhuma finalidade – Flamingo nem sequer passou perto de acertar alguém. Ele se deslocou por mais de três metros ainda em ascensão e, quando começou a envergar o corpo, foi
como assistir a um mergulhador profissional se posicionando para adentrar a
água com os braços. O garoto não só caiu na água sem se machucar, como também
conseguiu manter a garrafa intacta; ao emergir novamente, diante do olhar de
todas aquelas dezenas de pessoas, Flamingo pareceu tomar consciência do que
acontecera – talvez o banho de água fria o houvesse despertado. Fez-se um
momento sepulcral de silêncio absoluto, onde todas as pessoas pareciam receosas
até mesmo de respirar. Assustado com tudo aquilo, Edward lentamente levantou a
mão esquerda, que segurava a garrafa, como que mostrando a todos que ele não
quebrara nada... e levou-a a boca novamente. Alguns homens não conseguiram
conter o riso. A multidão explodiu em palmas, gritos e assovios. Ele estava
consagrado.
Os amigos
rolavam de gargalhar em cima do telhado, e, quando Bend achou que o apelido de
Flamingo estava mais do que aprovado, Johnny virou-se para eles e disse:
- Esse é o
cara mais louco que eu já vi.
Nascia Ned
Mad.
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