Capítulo 3 – “Na Varanda”
O joelho de
Sophie havia encostado em sua nuca pela quinta vez, e sempre que isso
acontecia, Mag sentia calafrios e um arrepio que lhe descia pela coluna.
- Sophie, você fez de novo – avisou ela, cochichando.
- Desculpe, linda, eu tô nervosa, agora ele vai vir
atrás de nós!
Sophie era quase tudo o que Mag não conseguira ser.
Antes de mais nada, ela era um ano mais velha, e seu corpo entrara na puberdade
precocemente – mas ao invés de espinhas e crescimento exagerado, ela ganhara peitos, o que a diferenciava de todas as
outras meninas de sua classe. Ruiva por natureza, era uma preciosidade em
Sunset Mountain e em toda a região vizinha, que incluía os vilarejos de Red
Grass, Rock Mountain, Infernal Heat e Blessed Sorrow, já que era a única garota
de cabelos vermelhos a circular por ali. Sophie tinha uma graça natural, e riso
fácil, de modo que todos os moleques a queriam por perto. Os óculos
pretos que ela sempre usava, por ter uma severa miopia para alguém de sua
idade, lhe davam um aspecto muito intelectual, coisa que, honestamente, era. As sardas
não muito abundantes em seu rosto completavam sua imagem de garota meiga e
doce.
Annie Margareth tinha dez anos, e era reta como uma
tábua. Tinha um rosto adorável, com expressivos olhos verdes, que poucas
pessoas contemplavam frequentemente, uma vez que ela costumava andar com a
cabeça baixa, com medo de encarar qualquer um nos olhos; algumas pessoas brincavam que
ela reconhecia as pessoas por seus calçados, e não por seus rostos. No começo
deste ano, quando Sophie entrou na Escola Profª Alice Smith, transferida de um
grande colégio da capital, imediatamente sentiu uma grande afeição por Mag. Mas,
embora a ruivinha constantemente a encorajasse a realizar mais atividades e
conversar com os colegas, sua falta de confiança ainda era enorme, e apenas há
poucas semanas Annie se sentiu encorajada o suficiente para começar a brincar
com os garotos.
Agora, Mag assistia, agachada atrás do guarda-corpo
de madeira da varanda, com Sophie de pé ao seu lado, atrás da coluna, à busca
de Ned Mad, que passou por elas sem intenções de olhar para dentro do Shark Roast,
e continuou rumo ao bosque.
A amiga ao lado suspirou aliviada, e permitiu-se um
cochicho:
- Agora eu pensei que nós estávamos fritas. Nós nunca
iríamos ganhar no Ned na corri... AAAAAAAAAAAHHHHH!
O grito de Sophie Miel foi ouvido até no Lago Black
Shark. Mag ergueu-se de imediato, com o susto, cerrando os punhos, pronta para
reagir de qualquer maneira, mesmo que fosse necessário brigar para salvar a
amiga. Ned Mad parou de caminhar para a mata e pôs-se a correr de volta ao
restaurante, para ver o que estava acontecendo. Os garotos que já haviam sido
pegos também vinham em largas passadas de onde estavam sentados para averiguar
a razão do grito. Bend Mitchel abandonou o esconderijo, por tanto tempo
planejado, e desceu ao Shark Roast.
Embasbacado, o Sr. Mathews tentava explicar à Sophie
que não tivera a intenção de assustá-la quando colocara sua mão em seu ombro. “Nunca
eu tratei mal uma dama”, dizia o pobre velho, “só queria pedir pra que vocês
brincassem lá fora para não incomodar os clientes!” Embora a garota tivesse se
arrependido de sua reação e já houvesse perdoado o Sr. Mathews, o dono do
estabelecimento continuava implorando desculpas de todas as maneiras.
Quando ele estava prometendo um jantar grátis para
toda sua família, Ned chegou, seguido de Bend.
- O que aconteceu? – quis saber prontamente o líder
do grupo.
- Nada, Bend – respondeu Sophie, feliz por ter um
motivo para dar as costas para o velho – Eu me assustei à toa.
A desolação na face do garoto era evidente até para
quem menos o conhecesse. Perdera sua grande chance de vencer Ned Mad na
corrida; de provar sua superioridade aos amigos; de se vangloriar para Sophie. E, mais importante:
perdera sua grande chance de impressionar Mag.
Antes que qualquer uma das sete pessoas ao redor pudesse perguntar a ele qual
era o motivo de sua súbita decepção, ele se virou de frente para Ned, agarrou-o
pelo colarinho da camiseta com as duas mãos e apoiou-o com as costas contra o
guarda-corpo do restaurante, onde, abaixo deles, havia apenas as revoltas águas
do lago.
Olhando no fundo dos olhos dele, Bend Mitchel falou o
que todos queriam ouvir há muito tempo:
- Você e eu. Corrida. Agora.
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