Capítulo 7 – “A Corrida”
Bend
Mitchel sentia a sola de seu sapato deslizar sob seus pés. O suor lhe banhava a
pele dos membros. O velho sentimento de adrenalina pelo qual tanto prezava
estava se irradiando por cada centímetro de seu corpo e mal podia sentir seus
dedos. Abaixou a cabeça para olhar sua mão direita esticada: ele tremia tanto
que seria impossível escrever seu nome em uma folha de papel sem rasga-la.
Aquilo não era apenas uma corrida, uma brincadeira entre amigos; era uma
competição séria, interna, entre dois grandes amigos – e rivais, como todos bem
sabiam – que nunca antes haviam entrado em conflito. Mitchel nunca desejara que
isso acontecesse; Ned Mad aceitava o posto de vice, e não queria saber se era
ou não capaz de sublevar-se contra o líder. Tudo o que ambos sempre fizeram
questão de manter foi o bom convívio entre todos, principalmente entre eles
mesmos.
Mas as
coisas mudaram com a chegada dela...
Annie
Margareth exercia um estranho fascínio em Bend. Desde que a pequena chegara à
Sunset Mountain, ele sonhava constantemente com ela, em conversar com ela, em
rir com ela, em...
Sim, o
durão Mark “Bend” Mitchel estava apaixonado. E os homens apaixonados fazem
bobagens, querem se mostrar, expor-se de algum modo que chame a atenção da
amada. E se os homens fazem isso, o que dizer dos garotos?
Embora o
chefe já tivesse percebido que Mag preferia a companhia de Max e Johnny Dirty,
não pôde deixar de notar como ela olhava para Ned. Lamb e Dirty não eram
adversários dignos, mas os músculos, a altivez e a estatura de Ned Mad o faziam
sentir receio – receio de que não fosse ele o primeiro a ter a chance de ama-la.
E ele
estava ali, ao seu lado, iluminado pelos faróis, aguardando a buzina; concentrado,
evitando seu olhar, o velho Flamingo tinha os olhos fixos na meta, o Corcel vermelho de
Sonny Slit.
Antes que
Bend pudesse se perder completamente em seus pensamentos, soou o sinal tão esperado. Como se
estivessem além de seu controle, seus pés, seu corpo, seus braços, se puseram
em movimento automaticamente, passando a ignorar todos os elementos externos à
pista, à chegada e ao seu adversário. Se havia pessoas torcendo por um dos dois,
ele não viu. Se havia um carro por trás daquelas luzes brancas, ele não viu. Se
havia uma pedra em seu caminho, ele, decididamente, não viu. E isso foi
exatamente o que mudou sua vida para sempre.
Limpar a “pista”
antes da corrida fora a responsabilidade de quem? Isso não parecera tão
importante, mas no momento em que o garoto teve o vislumbre da ponta daquela
lança, e sentiu-a penetrando seu crânio, silenciosamente amaldiçoou a todos,
exceto Mag, por aquela imprudência.
A tão
aguardada disputa durou poucos segundos, após a largada; como todos intimamente
sabiam, Ned Mad saíra vencedor. Bend jazia no chão, imóvel, talvez de vergonha.
Sua explosão de raiva já era aguardada, e Sonny saía do carro para tentar
conte-la.
- Ei Bend,
que que foi? Não vai dar uma de mal perdedor, né? – disse Slit caminhando em
sua direção, e acrescentando em voz baixa – Como sempre...
Mas Mitchel
não respondia e, começando a entender o que se passava, Sophie chegou a ele
antes de Sonny Slit. Agachando-se ao seu lado, levou as mãos à boca e não
conseguiu resistir às lágrimas que imediatamente lhe vieram aos olhos.
O garoto
havia tropeçado em uma pedra, e por uma fatalidade caíra exatamente sobre um
galho partido de uma das árvores do bosque. Um dos ramos era absurdamente
pontiagudo, e trespassara sua cabeça. A cena era chocante, e traumatizante.
Seus olhos fitavam o vazio da noite que se adensava, e o sangue escorria
vermelho escuro através da grama e da terra. Seu corpo inerte caíra em um
ângulo estranho, e isso era ainda mais entristecedor.
Todos seus
amigos já estavam ao seu redor, e olhavam para ele com expressões neutras, ou
chorosas. Sonny Slit não sabia como proceder, o que devia fazer, mas era ele o
mais velho e todos esperavam uma atitude.
Annie
Margareth ajoelhou-se sobre o corpo de Bend Mitchel, em frente a Sophie, colocou suas mãos sobre
seu peito e começou a soluçar descontroladamente.
Subitamente,
o garoto inspirou uma grande quantidade de ar, e seus olhos se voltaram para os
cabelos loiros que lhe tapavam a vista da lua, e fixaram-se na linda, embora
triste face de Mag.
- Annie... –
pronunciou o garoto com dificuldade.
- ELE ESTÁ
VIVO! – gritou alguém, que parecia estar a quilômetros de distância.
E o mundo
foi ocultado por um véu de trevas.
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