terça-feira, 2 de abril de 2013

Seal - Capítulo 7 - "A Corrida"


Capítulo 7 – “A Corrida”

Bend Mitchel sentia a sola de seu sapato deslizar sob seus pés. O suor lhe banhava a pele dos membros. O velho sentimento de adrenalina pelo qual tanto prezava estava se irradiando por cada centímetro de seu corpo e mal podia sentir seus dedos. Abaixou a cabeça para olhar sua mão direita esticada: ele tremia tanto que seria impossível escrever seu nome em uma folha de papel sem rasga-la. Aquilo não era apenas uma corrida, uma brincadeira entre amigos; era uma competição séria, interna, entre dois grandes amigos – e rivais, como todos bem sabiam – que nunca antes haviam entrado em conflito. Mitchel nunca desejara que isso acontecesse; Ned Mad aceitava o posto de vice, e não queria saber se era ou não capaz de sublevar-se contra o líder. Tudo o que ambos sempre fizeram questão de manter foi o bom convívio entre todos, principalmente entre eles mesmos.

Mas as coisas mudaram com a chegada dela...

Annie Margareth exercia um estranho fascínio em Bend. Desde que a pequena chegara à Sunset Mountain, ele sonhava constantemente com ela, em conversar com ela, em rir com ela, em...

Sim, o durão Mark “Bend” Mitchel estava apaixonado. E os homens apaixonados fazem bobagens, querem se mostrar, expor-se de algum modo que chame a atenção da amada. E se os homens fazem isso, o que dizer dos garotos?

Embora o chefe já tivesse percebido que Mag preferia a companhia de Max e Johnny Dirty, não pôde deixar de notar como ela olhava para Ned. Lamb e Dirty não eram adversários dignos, mas os músculos, a altivez e a estatura de Ned Mad o faziam sentir receio – receio de que não fosse ele o primeiro a ter a chance de ama-la.

E ele estava ali, ao seu lado, iluminado pelos faróis, aguardando a buzina; concentrado, evitando seu olhar, o velho Flamingo tinha os olhos fixos na meta, o Corcel vermelho de Sonny Slit.

Antes que Bend pudesse se perder completamente em seus pensamentos, soou o sinal tão esperado. Como se estivessem além de seu controle, seus pés, seu corpo, seus braços, se puseram em movimento automaticamente, passando a ignorar todos os elementos externos à pista, à chegada e ao seu adversário. Se havia pessoas torcendo por um dos dois, ele não viu. Se havia um carro por trás daquelas luzes brancas, ele não viu. Se havia uma pedra em seu caminho, ele, decididamente, não viu. E isso foi exatamente o que mudou sua vida para sempre.

Limpar a “pista” antes da corrida fora a responsabilidade de quem? Isso não parecera tão importante, mas no momento em que o garoto teve o vislumbre da ponta daquela lança, e sentiu-a penetrando seu crânio, silenciosamente amaldiçoou a todos, exceto Mag, por aquela imprudência.

A tão aguardada disputa durou poucos segundos, após a largada; como todos intimamente sabiam, Ned Mad saíra vencedor. Bend jazia no chão, imóvel, talvez de vergonha. Sua explosão de raiva já era aguardada, e Sonny saía do carro para tentar conte-la.

- Ei Bend, que que foi? Não vai dar uma de mal perdedor, né? – disse Slit caminhando em sua direção, e acrescentando em voz baixa – Como sempre...

Mas Mitchel não respondia e, começando a entender o que se passava, Sophie chegou a ele antes de Sonny Slit. Agachando-se ao seu lado, levou as mãos à boca e não conseguiu resistir às lágrimas que imediatamente lhe vieram aos olhos.

O garoto havia tropeçado em uma pedra, e por uma fatalidade caíra exatamente sobre um galho partido de uma das árvores do bosque. Um dos ramos era absurdamente pontiagudo, e trespassara sua cabeça. A cena era chocante, e traumatizante. Seus olhos fitavam o vazio da noite que se adensava, e o sangue escorria vermelho escuro através da grama e da terra. Seu corpo inerte caíra em um ângulo estranho, e isso era ainda mais entristecedor.

Todos seus amigos já estavam ao seu redor, e olhavam para ele com expressões neutras, ou chorosas. Sonny Slit não sabia como proceder, o que devia fazer, mas era ele o mais velho e todos esperavam uma atitude.

Annie Margareth ajoelhou-se sobre o corpo de Bend Mitchel, em frente a Sophie, colocou suas mãos sobre seu peito e começou a soluçar descontroladamente.

Subitamente, o garoto inspirou uma grande quantidade de ar, e seus olhos se voltaram para os cabelos loiros que lhe tapavam a vista da lua, e fixaram-se na linda, embora triste face de Mag.

- Annie... – pronunciou o garoto com dificuldade.

- ELE ESTÁ VIVO! – gritou alguém, que parecia estar a quilômetros de distância.

E o mundo foi ocultado por um véu de trevas.

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