Capítulo 8 – “Decisão”
A cabeça de
Sonny Slit rodava. Definitivamente ele estava mais desesperado que qualquer uma
das crianças dali – mas ele não podia deixar transparecer isso.
- Jack, pega a chave do meu carro e traz ele aqui
perto.
- M-mas e-e-eu não sei d-diri...
- FAZ O QUE EU MANDEI, DROGA.
Jack Moron pegou no ar a chave do Corcel arremessada por
Sonny e seguiu para o automóvel, as pernas bambas. Slit sabia que estava cometendo erros...
gritar com uma criança e manda-la dirigir um carro?
- Espera, Jack, desculpa, me devolve a chave aqui e
fica do lado do Bend – disse o jovem, arrependido, levantando-se do gramado
onde o sangue lentamente se espalhava. Claire estava afastada da cena de
comoção, próxima ao carro. Ele chegou perto dela, ambos com os olhos
lacrimejantes, e a abraçou.
- Claire... – começou Sonny.
- Eu sei, amor, eu sei. Vamos fazer tudo que for
possível para salvar ele – soluçou a garota em seus ombros.
- Eu conheço esse garoto desde pequeno... se ele
morrer... se ele ficar com alguma sequela... eu... eu... – ele não encontrava
palavras para expressar seu sentimento. Bend Mitchel sempre se espelhara nele,
e ele sempre se sentira orgulhoso por isso. Eram mais parecidos entre si
do que Sonny Slit e Johnny Dirty jamais seriam. O espírito de liderança e a
admiração mútua eram os laços que os uniam.
Ao sentar no banco do motorista, ele se permitiu,
entre colocar a chave na ignição e engatar a primeira marcha, uma breve
reflexão da cena estática a sua frente. Ao redor de Bend estavam Sophie, Mag e
Jack, abaixados. Sophie e Mag seguravam as mãos do garoto e derramavam rios de
lágrimas, enquanto Jack só estava próximo, vigilante, cuidadoso. Em pé, estavam
Johnny, incrédulo, Max, que parecia que a qualquer momento vomitaria seu almoço, e Ned Mad, com um profundo sentimento de culpa, que todos, inclusive ele mesmo,
sabiam não ser justo, mas que não seria facilmente superado. Claire permanecia
longe, como se não descobrisse um modo de penetrar naquela intimidade e o que seria
certo dizer para apaziguar todo aquele drama.
O sol já havia desaparecido no horizonte, lá deixando
apenas uma intensa coloração azul, e no resto do céu, um negro de poucas
estrelas.
Quando Sonny estacionou ao lado do grupo, ele
avistou, contra a luz do farol do carro, o Sr. Mathews, o velho dono do Shark Roast,
correndo desabaladamente para ver o que se sucedia em seus campos.
- O que
aconteceu? Ouvi gritos lá de cima! Alguém se machucou? – perguntou a esmo.
- Sim, Sr. Mathews, e foi grave – falou saindo do
carro e apontando para Bend no chão, tentando fazer com que sua voz tremesse o
mínimo possível.
O velho cozinheiro olhou e abafou um grito de
exasperação com a mão sobre a boca.
- Meu Deus! Meu Deus! Vocês vão leva-lo a um
hospital?
- Sim, o senhor pode me ajudar a colocar ele no banco
traseiro?
- Não, espere, vou ligar para uma ambulância vir
busca-lo, eu tenho um telefone na cozinha que eu quase nunca uso...
E lá se foi o Sr. Mathews correndo de volta ao
restaurante. Alguns minutos tensos se passaram, nos quais Max finalmente cedeu
à pressão e lançou um jato líquido por sua boca, que atingiu a grama muito
perto de onde segundos antes estivera o pé de Ned Mad. Quando o idoso voltou
correndo o mais rápido que suas pernas fracas permitiam, ele não mostrava um
semblante nada positivo.
- Só haverá uma ambulância disponível daqui a uns 15
minutos. Está havendo emergências em todos os povoados hoje, a atendente me
disse que nunca viu nada parecido. E eles nem garantiram que terá um leito
desocupado para o menino também.
Sonny não podia aceitar o que estava ouvindo.
- Mas ele tem que ser atendido. E tem que ser
internado! Ele tá correndo risco de morte aqui!
Slit não percebera a aproximação da sua namorada, até
que essa lhe falou em um tom resignado, como quem dá uma sugestão esperando uma
interrupção ríspida.
- Amor, o único outro vilarejo da região que tem um
hospital é Bless... a gente podia levar o Bend até lá... se você concordar...
Slit virou-se e a encarou nos olhos. Ambos sabiam no
que isso implicava, embora ela não estivesse disposta a admitir. Transporta-lo
para Blessed Sorrow seria sua única chance de sobrevivência – mas dirigir pela
Empiric High à noite poderia condenar a todos que estivessem dentro do carro no
caminho. Porém, se era
necessário escolher entre uma certeza e uma possibilidade...
- Sr. Mathews, Ned, me ajudem a coloca-lo no banco
traseiro. Eu estou indo para Blessed Sorrow. Sozinho.
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