Capítulo 9 – “Km 38”
She’s mine! Take what I want,
Get what I need, don’t take it all!
Os
estridentes gritos de Brian Johnson soavam baixinho dentro do Corcel vermelho
que subia para o acesso à Empiric High. Sonny Slit estava vagamente consciente
do CD que escolhera para aquela viagem. No banco traseiro, um garoto
com um galho inexplicavelmente fincado
em seu crânio jazia inconsciente.
“Não tem
como isso ter acontecido. Não tem como. Por mais pontudo que seja, como poderia
ter atravessado a camada de ossos da cabeça? Não faz sentido, aconteceu tão
rápido...”
She turn it on, upside down!
She turn me on, inside out!
Um
guitarrista com raios elétricos ao redor de seu corpo protagonizava a capa
daquele álbum. Sonny parou o carro no acostamento, tirou o CD do aparelho de
som e o guardou em sua caixa. O som de AC/DC a meio volume estava gostoso, mas
era hora de se concentrar totalmente em sua próxima tarefa. A dez metros da frente
do carro podia-se ler em uma placa:
Você está
prestes a entrar na EMPIRIC HIGHWAY.
Redobre seu
cuidado.
Velocidade
máxima permitida: 60 km/h
Slit engatou
a primeira marcha e começou a subida pela escura rodovia. Poderia ser
impressão, mas ele sentia que a respiração de Bend Mitchel enfraquecia de
tempos em tempos. Às vezes ele tentava conversar com o moleque, mas sabia que as
chances de voltar a ouvir sua voz diminuíam a cada minuto. As curvas
sucediam-se interminavelmente, e como sempre sua tensão estava aumentando. Seus
ombros doíam pela hirteza com que guiava, mas tentava não pensar nisso, e
mantinha seus olhos na estrada, quase sem piscar.
Subitamente,
sem que Sonny tivesse tempo para entender, uma das raras placas de sinalização
da E. H. veio voando em sua direção, trespassando seu para-brisa. O jovem
tentara virar o volante e apertar o freio simultaneamente, causando uma
derrapagem que fez com que batesse no barranco que o ladeava à direita.
O mundo
pareceu parar por um minuto. O único som audível era o do silêncio.
Lentamente,
ainda processando o que acontecera, ele passou a mão pelo rosto, sentiu os
pequenos pedaços de vidro e o sangue dos cortes. A dor ainda não chegara, mas sabia
que era questão de minutos para que viesse a senti-la. Ao seu lado, no banco do
carona, estava a placa, como que um mochileiro nada bem-vindo, na qual, apesar
de todos os riscos e amassados, era possível ler “km 38”. Sonny esticou os
braços e as pernas, bem como todos os dedos, em busca de fraturas, luxações e o
que mais pudesse ter acontecido. Tudo parecia bem, e se sentiu tão aliviado que
imediatamente relaxou. Percebeu como sua bexiga estava cheia e resolveu descer
do carro para esvazia-la. Por que já não olhava todos os estragos para
aproveitar?
Já abrira a
porta do carro e pusera um pé para fora, quando se lembrou. Não havia um garoto
quase morto no banco de trás, esperando por um socorro já tardio?
Como
levasse um choque elétrico, Sonny Slit colocou no neutro e ligou o
carro na mesma hora, e partiu pela pista cantando pneu, disposto a chegar ao
hospital o mais rápido possível. Faltavam menos de 20 quilômetros, e ele pisou
fundo, embora respeitasse o limite imposto – sempre.
O que
aconteceu? Como aquela placa, que estava firmemente presa ao chão segundos
antes, simplesmente viera em sua direção sem motivo algum? Ele esperava poder
entender isso mais tarde. “Graças a Deus por ter virado para a direita no
reflexo” agradeceu ele. Engolindo em seco, imaginou se ainda estaria em queda
livre se houvesse derrapado para a esquerda...
Depois de
pouco mais de vinte minutos, já entrara em Blessed Sorrow, e procurava pelo
hospital local. A frente destruída de seu carro atraía olhares das pessoas na
rua, e Sonny xingou-as todas mentalmente.
As grandes
letras vermelhas em uma parede cor de terra, com a pintura já gasta, atraíram
seu olhar.
HOSPITAL
DISTRITAL DE BLESSED SORROW
Pela segunda
vez na noite, sentiu o alívio percorrer seu corpo. Finalmente tratariam de
Bend. E sentindo uma pontada aguda nas costelas, pensou que talvez não fosse
uma má ideia fazer um exame de raios-X em seu corpo.
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