sábado, 20 de abril de 2013

Seal - Capítulo 9 - "Km 38"


Capítulo 9 – “Km 38”

She’s mine! Take what I want,
Get what I need, don’t take it all!

Os estridentes gritos de Brian Johnson soavam baixinho dentro do Corcel vermelho que subia para o acesso à Empiric High. Sonny Slit estava vagamente consciente do CD que escolhera para aquela viagem. No banco traseiro, um garoto com um galho inexplicavelmente fincado em seu crânio jazia inconsciente.

“Não tem como isso ter acontecido. Não tem como. Por mais pontudo que seja, como poderia ter atravessado a camada de ossos da cabeça? Não faz sentido, aconteceu tão rápido...”

She turn it on, upside down!
She turn me on, inside out!

Um guitarrista com raios elétricos ao redor de seu corpo protagonizava a capa daquele álbum. Sonny parou o carro no acostamento, tirou o CD do aparelho de som e o guardou em sua caixa. O som de AC/DC a meio volume estava gostoso, mas era hora de se concentrar totalmente em sua próxima tarefa. A dez metros da frente do carro podia-se ler em uma placa:

Você está prestes a entrar na EMPIRIC HIGHWAY.
Redobre seu cuidado.

Velocidade máxima permitida: 60 km/h

Slit engatou a primeira marcha e começou a subida pela escura rodovia. Poderia ser impressão, mas ele sentia que a respiração de Bend Mitchel enfraquecia de tempos em tempos. Às vezes ele tentava conversar com o moleque, mas sabia que as chances de voltar a ouvir sua voz diminuíam a cada minuto. As curvas sucediam-se interminavelmente, e como sempre sua tensão estava aumentando. Seus ombros doíam pela hirteza com que guiava, mas tentava não pensar nisso, e mantinha seus olhos na estrada, quase sem piscar.

Subitamente, sem que Sonny tivesse tempo para entender, uma das raras placas de sinalização da E. H. veio voando em sua direção, trespassando seu para-brisa. O jovem tentara virar o volante e apertar o freio simultaneamente, causando uma derrapagem que fez com que batesse no barranco que o ladeava à direita.

O mundo pareceu parar por um minuto. O único som audível era o do silêncio.

Lentamente, ainda processando o que acontecera, ele passou a mão pelo rosto, sentiu os pequenos pedaços de vidro e o sangue dos cortes. A dor ainda não chegara, mas sabia que era questão de minutos para que viesse a senti-la. Ao seu lado, no banco do carona, estava a placa, como que um mochileiro nada bem-vindo, na qual, apesar de todos os riscos e amassados, era possível ler “km 38”. Sonny esticou os braços e as pernas, bem como todos os dedos, em busca de fraturas, luxações e o que mais pudesse ter acontecido. Tudo parecia bem, e se sentiu tão aliviado que imediatamente relaxou. Percebeu como sua bexiga estava cheia e resolveu descer do carro para esvazia-la. Por que já não olhava todos os estragos para aproveitar?

Já abrira a porta do carro e pusera um pé para fora, quando se lembrou. Não havia um garoto quase morto no banco de trás, esperando por um socorro já tardio?

Como levasse um choque elétrico, Sonny Slit colocou no neutro e ligou o carro na mesma hora, e partiu pela pista cantando pneu, disposto a chegar ao hospital o mais rápido possível. Faltavam menos de 20 quilômetros, e ele pisou fundo, embora respeitasse o limite imposto – sempre.

O que aconteceu? Como aquela placa, que estava firmemente presa ao chão segundos antes, simplesmente viera em sua direção sem motivo algum? Ele esperava poder entender isso mais tarde. “Graças a Deus por ter virado para a direita no reflexo” agradeceu ele. Engolindo em seco, imaginou se ainda estaria em queda livre se houvesse derrapado para a esquerda...

Depois de pouco mais de vinte minutos, já entrara em Blessed Sorrow, e procurava pelo hospital local. A frente destruída de seu carro atraía olhares das pessoas na rua, e Sonny xingou-as todas mentalmente.

As grandes letras vermelhas em uma parede cor de terra, com a pintura já gasta, atraíram seu olhar.

HOSPITAL DISTRITAL DE BLESSED SORROW

Pela segunda vez na noite, sentiu o alívio percorrer seu corpo. Finalmente tratariam de Bend. E sentindo uma pontada aguda nas costelas, pensou que talvez não fosse uma má ideia fazer um exame de raios-X em seu corpo.

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