quarta-feira, 22 de maio de 2013

Seal - Capítulo 10 - "À Meia-Luz"


Capítulo 10 – “À Meia-Luz”

Atenção, Dr. Carlos...

- Judith, você pode vir aqui um minuto?

Judith Wizenson ergueu os olhos do relatório que lia concentradamente nos últimos dez minutos, a respeito do serviço das suas subordinadas. Aparentemente, estavam insatisfeitos com os cuidados que sua equipe estava dispensando a alguns pacientes.

- O que foi, Sam? – perguntou, com um tom um pouco mais irritado do que pretendia.

A enfermeira apenas encarou a chefe, temporariamente sem fala. Sam não sabia lidar com pressão, por mínima que fosse; ela vivia se recordando disso.

- Desculpe, Sam – disse Judith novamente, levantando-se da mesa onde estava e segurando suas mãos – Eu me esqueço. Onde estão me chamando?

- Na emergência. O namorado da filha dos Lambwood sofreu um acidente naquela estrada, agora há pouco. Ele não parece ter se machucado muito, mas o garoto que estava com ele no carro está em um estado grave.

As enfermeiras já passavam pelos corredores do pequeno hospital em direção à ala onde os garotos se encontravam.

- Mas que garoto irresponsável! Acabou de conseguir a habilitação e já pensa que pode dirigir numa estrada perigosa como essa à noite, e com um menor! É claro que uma coisa dessas iria acontecer mesmo. O que aconteceu com o menino?

- Pelo que eu entendi, o crânio dele foi trespassado por um galho. O carro está destruído, mesmo depois do acidente o garoto veio dirigindo.

- Meu Deus, espero que ele resista.

                ***

                À meia-luz, todos se espremiam na cozinha do Shark Roast e ouviam o monossilábico Sr. Mathews ao telefone. A visão de Bend estirado no chão realmente o afetara, uma vez que normalmente ele estaria contando histórias de seu passado, ou dando palpites nos assuntos alheios.

                - Sim. Sim. É verdade. Não, entendo. Sim. Ok. Vou contar para o pessoal aqui, estão todos na minha cozinha.

                O cozinheiro colocou o fone no gancho e olhou ao redor. Entre o fogão industrial, as geladeiras e os freezers, todos estavam aguardando notícias. As garotinhas, Sophie e Mag, estavam abraçadas chorando em silêncio em um canto, as mães de ambas esperando, compadecidas. O garoto estranho, Jack Moron, estava sentado em um banco, olhando para o teto, com uma expressão impenetrável. Ned Mad estava em pé, ao centro, o que o tornava ainda mais alto. Aliás, a simples ausência de Bend já o destacava dos demais. Max e Johnny conversavam por cochichos, e Claire estava isolada dos demais, apoiada em um balcão, com os braços cruzados, suas longas e impecáveis unhas azuis aparecendo, esperando o momento de quando tudo aquilo acabaria e ela poderia se recostar na sua cama, na casa de sua mãe, e ouvir um pouco de música.

                - Anh... – começou ele, e todos se aprumaram – eu tenho boas e más notícias.

                O velho esperou que alguém se manifestasse dizendo quais preferiam, mas todos se mantiveram em um silêncio sepulcral, cortado apenas pelas choramingas de Sophie. Decidiu, então, por si mesmo.

                - Sonny sofreu um acidente na estrada, e...

                Mas foi interrompido por Claire:

                - COMO ASSIM SONNY SOFREU UM ACIDENTE NA ESTRADA? NINGUÉM DIRIGE NAQUELA ESTRADA MELHOR QUE ELE, NINGUÉM CONHECE AQUELA MALDITA ESTRADA QUE NEM ELE...

                Claire, vermelha, agarrava firmemente um dos balcões onde antes estava apoiada, como que para não esbofetear aquele mentiroso, aquele velho, para não arrancar sua língua...

                - ...SE TEM ALGUÉM QUE NÃO SOFRE UM ACIDENTE NAQUELA ESTRADA É O MEU NAMORADO, E...

                - Mas, menina, ele está bem, não aconteceu nada de mais. Ele já chegou ao hospital, fez alguns exames, não há nada de errado.

                A garota, ainda exasperada, olhou para todos, absorvendo a informação. Não havia nada de errado com Sonny, tudo estava bem. Agora ela tomava consciência do escândalo que tinha feito, e começava a corar de vergonha.

                - Desculpa, eu... eu vou esperar lá nas mesas.

                E antes que alguém pudesse convencê-la do contrário, bateu a porta atrás de si e não voltou. Depois disso, voltaram sua atenção novamente ao dono do estabelecimento.

                - E o Bend, como ele está, Sr. Mathews? – indagou Ned Mad, ansioso para saber do estado de seu melhor amigo.

                - Temo que o garoto não esteja nada bem, Edward. Ele já está internado, mas seu estado ainda é instável. Teremos que esperar para ver o que acontecerá.

                O silêncio caiu novamente sobre eles, e assim ficaram por alguns minutos, perdidos em suas próprias reflexões, de crianças, de jovens, de mães e de idosos.

                Não perceberam como estava escuro até que a claridade do salão os iluminou, quando a porta se abriu novamente. Pensando ser Claire, Max voltou os olhos para a entrada, mas ao invés dos sedosos cabelos da irmã, viu um chapéu coco na cabeça de um jovem que não aparentava ter mais de 25 anos.

                - Olá, meu nome é Stuart. Stuart Manilow. Sou jornalista da Heat News, e minhas fontes em Bless me disseram que eu deveria vir aqui caso quisesse saber sobre o acidente na E. H. Estou interrompendo alguma coisa?

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