Capítulo 10 – “À Meia-Luz”
Atenção, Dr. Carlos...
- Judith,
você pode vir aqui um minuto?
Judith
Wizenson ergueu os olhos do relatório que lia concentradamente nos últimos dez
minutos, a respeito do serviço das suas subordinadas. Aparentemente, estavam
insatisfeitos com os cuidados que sua equipe estava dispensando a alguns
pacientes.
- O que
foi, Sam? – perguntou, com um tom um pouco mais irritado do que pretendia.
A
enfermeira apenas encarou a chefe, temporariamente sem fala. Sam não sabia
lidar com pressão, por mínima que fosse; ela vivia se recordando disso.
- Desculpe,
Sam – disse Judith novamente, levantando-se da mesa onde estava e segurando
suas mãos – Eu me esqueço. Onde estão me chamando?
- Na emergência.
O namorado da filha dos Lambwood sofreu um acidente naquela estrada, agora há
pouco. Ele não parece ter se machucado muito, mas o garoto que estava com ele
no carro está em um estado grave.
As
enfermeiras já passavam pelos corredores do pequeno hospital em direção à ala
onde os garotos se encontravam.
- Mas que
garoto irresponsável! Acabou de conseguir a habilitação e já pensa que pode
dirigir numa estrada perigosa como essa à noite, e com um menor! É claro que
uma coisa dessas iria acontecer mesmo. O que aconteceu com o menino?
- Pelo que
eu entendi, o crânio dele foi trespassado por um galho. O carro está destruído,
mesmo depois do acidente o garoto veio dirigindo.
- Meu Deus,
espero que ele resista.
***
À meia-luz, todos se espremiam na cozinha do Shark
Roast e ouviam o monossilábico Sr. Mathews ao telefone. A visão de Bend
estirado no chão realmente o afetara, uma vez que normalmente ele estaria
contando histórias de seu passado, ou dando palpites nos assuntos alheios.
- Sim. Sim. É verdade. Não, entendo. Sim. Ok. Vou
contar para o pessoal aqui, estão todos na minha cozinha.
O cozinheiro colocou o fone no gancho e olhou ao
redor. Entre o fogão industrial, as geladeiras e os freezers, todos estavam
aguardando notícias. As garotinhas, Sophie e Mag, estavam abraçadas chorando em
silêncio em um canto, as mães de ambas esperando, compadecidas. O garoto
estranho, Jack Moron, estava sentado em um banco, olhando para o teto, com uma
expressão impenetrável. Ned Mad estava em pé, ao centro, o que o tornava ainda
mais alto. Aliás, a simples ausência de Bend já o destacava dos demais. Max e
Johnny conversavam por cochichos, e Claire estava isolada dos demais, apoiada
em um balcão, com os braços cruzados, suas longas e impecáveis unhas azuis
aparecendo, esperando o momento de quando tudo aquilo acabaria e ela poderia se
recostar na sua cama, na casa de sua mãe, e ouvir um pouco de música.
- Anh... – começou ele, e todos se aprumaram – eu
tenho boas e más notícias.
O velho esperou que alguém se manifestasse dizendo
quais preferiam, mas todos se mantiveram em um silêncio sepulcral, cortado
apenas pelas choramingas de Sophie. Decidiu, então, por si mesmo.
- Sonny sofreu um acidente na estrada, e...
Mas foi interrompido por
Claire:
- COMO ASSIM SONNY SOFREU UM ACIDENTE NA ESTRADA?
NINGUÉM DIRIGE NAQUELA ESTRADA MELHOR QUE ELE, NINGUÉM CONHECE AQUELA MALDITA
ESTRADA QUE NEM ELE...
Claire, vermelha, agarrava firmemente um dos
balcões onde antes estava apoiada, como que para não esbofetear aquele mentiroso,
aquele velho, para não arrancar sua língua...
- ...SE TEM ALGUÉM QUE NÃO SOFRE UM ACIDENTE NAQUELA
ESTRADA É O MEU NAMORADO, E...
- Mas, menina, ele está bem, não aconteceu nada de
mais. Ele já chegou ao hospital, fez alguns exames, não há nada de
errado.
A garota, ainda exasperada, olhou para todos,
absorvendo a informação. Não havia nada de errado com Sonny, tudo estava bem.
Agora ela tomava consciência do escândalo que tinha feito, e começava a corar
de vergonha.
- Desculpa, eu... eu vou esperar lá nas mesas.
E antes que alguém pudesse convencê-la do contrário,
bateu a porta atrás de si e não voltou. Depois disso, voltaram sua atenção
novamente ao dono do estabelecimento.
- E o Bend, como ele está, Sr. Mathews? – indagou Ned
Mad, ansioso para saber do estado de seu melhor amigo.
- Temo que o garoto não esteja nada bem, Edward. Ele
já está internado, mas seu estado ainda é instável. Teremos que esperar para
ver o que acontecerá.
O silêncio caiu novamente sobre eles, e assim ficaram
por alguns minutos, perdidos em suas próprias reflexões, de crianças, de
jovens, de mães e de idosos.
Não perceberam como estava escuro até que a claridade
do salão os iluminou, quando a porta se abriu novamente. Pensando ser Claire,
Max voltou os olhos para a entrada, mas ao invés dos sedosos cabelos da irmã,
viu um chapéu coco na cabeça de um jovem que não aparentava ter mais de 25
anos.
- Olá, meu nome é Stuart. Stuart Manilow. Sou
jornalista da Heat News, e minhas fontes em Bless me disseram que eu deveria
vir aqui caso quisesse saber sobre o acidente na E. H. Estou interrompendo
alguma coisa?
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