terça-feira, 16 de julho de 2013

Seal - Capítulo 11 – “Algumas Madrugadas”

Capítulo 11 – “Algumas Madrugadas”

Bend Mitchel fez um grande esforço para abrir seus olhos. Suas pálpebras pareciam estar costuradas. Aos poucos o quarto escuro, iluminado apenas pelas luzes dos aparelhos ao redor de seu leito, foi entrando em foco. Ele conseguiu reconhecer, do outro lado da sala, outro paciente em sono profundo. Tentou virar a cabeça para o lado, procurando a porta, mas isso lhe causou uma dor de cabeça tão forte que desistiu. Moveu os dedos do pé e os da mão. Tentou dobrar o joelho, mas alguém devia ter colocado uma bigorna sobre suas pernas.

Relaxou.

Tentou lembrar como chegara ali. Flashes lhe vieram à cabeça. Uma brincadeira com seus amigos. Um galho. Dor. Uma viagem de carro.

Mexeu a língua, sentiu imediatamente um gosto ruim em sua boca. Há quanto tempo não escovava os dentes?

Enquanto todas as recordações eram ordenadas por ele, começou a se perguntar se a cirurgia – afinal, com certeza ele precisaria de uma – já havia sido feita.

Procurou com os olhos o fio com a campainha que chama a enfermeira. Já estivera internado antes por conta de uma fratura no pulso, sabia que ela devia estar por perto. Com um descomunal empenho, conseguiu mexer-se de modo a ficar de lado na cama, e percebeu que o fio caíra abaixo do estrado. Esticou o braço, no qual estava espetado um cateter. A campainha já estava em sua mão. Estranho... ele podia jurar que estava longe. Apertou-a e esperou alguns minutos.

A claridade do corredor adentrou o recinto quando a porta se abriu, por onde entrou uma mulher pouco mais velha que uma adolescente, vestida de branco. Ela parou em frente ao leito de Bend e levou as mãos à boca. Bend tentou falar, mas sua voz não saiu; ao invés disso, ele grunhiu algo incompreensível, que fez a enfermeira se afastar e voltar minutos depois com uma mulher mais velha e mais austera.

Ela pegou o prontuário do Bend, leu-o por alguns segundos e entregou-o à ajudante. Depois disso, mediu a pressão sanguínea do garoto enquanto ouvia seus batimentos cardíacos com um estetoscópio. Fez mais algumas anotações, e, finalmente, falou:

- Bem vindo, Sr. Mitchel. Há muitas pessoas esperando para vê-lo!

Dessa vez, Bend encontrou a voz:

- Eles passaram a madrugada aqui?

Embora fraca, sua voz parecia muito mais grave que habitualmente. Que medicações estariam lhe dando?

- Sim, sim, passaram algumas madrugadas sim. Vamos ligar para sua família imediatamente.

O garoto estava confuso. Como assim “algumas madrugadas”? Antes que Judith Wizenson pudesse sair, ele chamou-a novamente.

- O que aconteceu comigo?

Ela se virou e desatou a falar.

- Você teve um ferimento grave na cabeça, que atingiu uma parte do cérebro. Ninguém ainda conseguiu explicar com clareza como isso pode ter acontecido, nem mesmo aqueles que viram acontecer. O importante é que você já está reestabelecido e pronto para voltar para casa. Seus pais devem estar com saudades de você, e seus amigos também.

Prevendo o pior, Bend fez a pergunta que queria fazer desde o começo da conversa.

- Há quanto tempo estou aqui? Mais de uma semana?

Judith viu as lágrimas encharcarem os olhos do paciente, mas manteve-se neutra, como é necessário ser.

- Você está sob os meus cuidados há quatro anos e oito meses, Bend. Daqui a uma semana você será maior de idade.


As lágrimas escorreram.

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