Capítulo 11 – “Algumas Madrugadas”
Bend
Mitchel fez um grande esforço para abrir seus olhos. Suas pálpebras pareciam
estar costuradas. Aos poucos o quarto escuro, iluminado apenas pelas luzes dos
aparelhos ao redor de seu leito, foi entrando em foco. Ele conseguiu
reconhecer, do outro lado da sala, outro paciente em sono profundo. Tentou
virar a cabeça para o lado, procurando a porta, mas isso lhe causou uma dor de
cabeça tão forte que desistiu. Moveu os dedos do pé e os da mão. Tentou dobrar
o joelho, mas alguém devia ter colocado uma bigorna sobre suas pernas.
Relaxou.
Tentou
lembrar como chegara ali. Flashes lhe
vieram à cabeça. Uma brincadeira com seus amigos. Um galho. Dor. Uma viagem de
carro.
Mexeu a
língua, sentiu imediatamente um gosto ruim em sua boca. Há quanto tempo não
escovava os dentes?
Enquanto
todas as recordações eram ordenadas por ele, começou a se perguntar se a
cirurgia – afinal, com certeza ele precisaria de uma – já havia sido feita.
Procurou com
os olhos o fio com a campainha que chama a enfermeira. Já estivera internado
antes por conta de uma fratura no pulso, sabia que ela devia estar por perto.
Com um descomunal empenho, conseguiu mexer-se de modo a ficar de lado na cama,
e percebeu que o fio caíra abaixo do estrado. Esticou o braço, no qual estava
espetado um cateter. A campainha já estava em sua mão. Estranho... ele podia
jurar que estava longe. Apertou-a e esperou alguns minutos.
A claridade
do corredor adentrou o recinto quando a porta se abriu, por onde entrou uma
mulher pouco mais velha que uma adolescente, vestida de branco. Ela parou em
frente ao leito de Bend e levou as mãos à boca. Bend tentou falar, mas sua voz
não saiu; ao invés disso, ele grunhiu algo incompreensível, que fez a
enfermeira se afastar e voltar minutos depois com uma mulher mais velha e mais
austera.
Ela pegou o
prontuário do Bend, leu-o por alguns segundos e entregou-o à ajudante. Depois disso, mediu a pressão sanguínea do garoto enquanto ouvia seus batimentos cardíacos com um estetoscópio. Fez mais algumas anotações, e, finalmente, falou:
- Bem
vindo, Sr. Mitchel. Há muitas pessoas esperando para vê-lo!
Dessa vez,
Bend encontrou a voz:
- Eles
passaram a madrugada aqui?
Embora
fraca, sua voz parecia muito mais grave que habitualmente. Que medicações
estariam lhe dando?
- Sim, sim,
passaram algumas madrugadas sim. Vamos ligar para sua família imediatamente.
O garoto
estava confuso. Como assim “algumas madrugadas”? Antes que Judith Wizenson
pudesse sair, ele chamou-a novamente.
- O que
aconteceu comigo?
Ela se
virou e desatou a falar.
- Você teve
um ferimento grave na cabeça, que atingiu uma parte do cérebro. Ninguém ainda
conseguiu explicar com clareza como
isso pode ter acontecido, nem mesmo aqueles que viram acontecer. O importante é
que você já está reestabelecido e pronto para voltar para casa. Seus pais devem
estar com saudades de você, e seus amigos também.
Prevendo o
pior, Bend fez a pergunta que queria fazer desde o começo da conversa.
- Há quanto
tempo estou aqui? Mais de uma semana?
Judith viu
as lágrimas encharcarem os olhos do paciente, mas manteve-se neutra, como é
necessário ser.
- Você está
sob os meus cuidados há quatro anos e oito meses, Bend. Daqui a uma semana você
será maior de idade.
As lágrimas
escorreram.
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