quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Crônica - "Com Açúcar, com..."

Com açúcar, com...

Fora um dia exaustivo. Sentada em sua pobre poltrona, comendo as sobras do almoço, refletia. As horas passavam, a televisão repetia as mesmas coisas da semana anterior – para que se fixassem em sua mente – e nada dele chegar. Como toda sexta-feira, nos últimos 28 anos.
            De repente, a porta se escancara. As paredes tremem, e alguns pedaços de reboque pensos no alto finalmente caem na cabeça de Adílio, que nem os percebe. Seus olhos vermelhos e seu hálito de álcool confirmam sua bebedeira noturna. A madrugada avança, mas ela sabe que não pode dormir enquanto não cuidar de seu homem.
            - Está tarde.
            A esposa tenta se impor por sua voz, mas um leve titubeio ao final da frase denuncia seu cansaço, e seu medo.
            - Me prepara um café, que eu quero dormir. Vai, e não enrola.
            Grosso e direto. Sujo, malcheiroso. Um canalha. Já ouvira essa frase mais de 50 vezes em suas novelas, e ela nunca se aplicaria melhor do que neste momento: “Onde está o homem pelo qual me apaixonei?”.
            Colocou a água para ferver e foi procurar o açúcar no armário. Não colocaria muito, ouvira em algum lugar que o café amargo ajuda a rebater a bebedeira. Subitamente, outro tremor sacode o casebre, e ela deixa cair o pote, esparramando todo o conteúdo pelo chão. Adílio socara a parede.
            - Que que foi? O que aconteceu? – perguntou exasperada, à porta da sala.
            Ele não olha para ela, somente continua socando a parede com sua enorme e cascuda mão direita, enquanto diz:
            - Eu tô cansado. Eu tô cansado dessa vida.
            Suas feições endureciam em uma careta de pesar e raiva. Ele nunca agira dessa maneira antes. A pequena mulher começa a se amedrontar.
            - Eu vou ligar pra uma ambulância, você não está bem!
            Ela corre ao telefone na mesa de canto da sala, mas ele se precipita e com um movimento de braço arremessa o telefone na parede, enquanto solta um urro ensurdecedor, que a faz encolher-se de medo contra um dos cantos da parede e começar a soluçar.
            - CALA BOCA, MULHER, CALA BOCA. VOCÊ NÃO CONSEGUE CALAR A BOCA?
            Fora de controle. Um tanque de guerra sem nenhum raciocínio lógico, programado para aniquilar a todos. Na verdade, uma bomba relógio, montada de pouco em pouco, durante anos. A culpa não é dela, mas, inconscientemente, sabe que será ela quem pagará o preço.
            Adílio volta à sala, segurando a maior faca do faqueiro, presente de sua sogra. Como se já tivesse assistido a essa cena centenas de vezes, ela parece saber exatamente o que vai acontecer.
            Enquanto ele avança em sua direção, assustada e chorando, ela lança um último olhar para a televisão, que exibe a chamada de sua novela favorita. Uma cena de beijo. E ela sente uma lambida.

Por Matheus de Paula Gião Lianda


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