Com açúcar, com...
Fora um dia exaustivo.
Sentada em sua pobre poltrona, comendo as sobras do almoço, refletia. As horas
passavam, a televisão repetia as mesmas coisas da semana anterior – para que se
fixassem em sua mente – e nada dele chegar. Como toda sexta-feira, nos últimos
28 anos.
De
repente, a porta se escancara. As paredes tremem, e alguns pedaços de reboque
pensos no alto finalmente caem na cabeça de Adílio, que nem os percebe. Seus
olhos vermelhos e seu hálito de álcool confirmam sua bebedeira noturna. A
madrugada avança, mas ela sabe que não pode dormir enquanto não cuidar de seu
homem.
-
Está tarde.
A
esposa tenta se impor por sua voz, mas um leve titubeio ao final da frase
denuncia seu cansaço, e seu medo.
-
Me prepara um café, que eu quero dormir. Vai, e não enrola.
Grosso
e direto. Sujo, malcheiroso. Um canalha. Já ouvira essa frase mais de 50 vezes
em suas novelas, e ela nunca se aplicaria melhor do que neste momento: “Onde
está o homem pelo qual me apaixonei?”.
Colocou
a água para ferver e foi procurar o açúcar no armário. Não colocaria muito,
ouvira em algum lugar que o café amargo ajuda a rebater a bebedeira.
Subitamente, outro tremor sacode o casebre, e ela deixa cair o pote,
esparramando todo o conteúdo pelo chão. Adílio socara a parede.
-
Que que foi? O que aconteceu? – perguntou exasperada, à porta da sala.
Ele
não olha para ela, somente continua socando a parede com sua enorme e cascuda
mão direita, enquanto diz:
-
Eu tô cansado. Eu tô cansado dessa vida.
Suas
feições endureciam em uma careta de pesar e raiva. Ele nunca agira dessa
maneira antes. A pequena mulher começa a se amedrontar.
-
Eu vou ligar pra uma ambulância, você não está bem!
Ela
corre ao telefone na mesa de canto da sala, mas ele se precipita e com um
movimento de braço arremessa o telefone na parede, enquanto solta um urro
ensurdecedor, que a faz encolher-se de medo contra um dos cantos da parede e
começar a soluçar.
-
CALA BOCA, MULHER, CALA BOCA. VOCÊ NÃO CONSEGUE CALAR A BOCA?
Fora
de controle. Um tanque de guerra sem nenhum raciocínio lógico, programado para
aniquilar a todos. Na verdade, uma bomba relógio, montada de pouco em pouco,
durante anos. A culpa não é dela, mas, inconscientemente, sabe que será ela
quem pagará o preço.
Adílio
volta à sala, segurando a maior faca do faqueiro, presente de sua sogra. Como
se já tivesse assistido a essa cena centenas de vezes, ela parece saber
exatamente o que vai acontecer.
Enquanto
ele avança em sua direção, assustada e chorando, ela lança um último olhar para
a televisão, que exibe a chamada de sua novela favorita. Uma cena de beijo. E
ela sente uma lambida.
Por Matheus de Paula Gião Lianda
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